Palabras clave:cibersociedade-learning reflexividad etnografía / método etnográfico / etnografía virtual interculturalidad / diversidad |
Autor(-a/s):José da Silva Ribeiro |
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Abstract:En la última década fue introducido en el debate antropológico la noción de una hipotética antropología digital y el desarrollo de algunas actuaciones a que referiremos. Nos cuestionamos si éstas están inscriptas en el anterior cuadro de actividades de la antropología o de la antropología visual o si apuntan para nuevas perspectivas de investigación, nuevos objetos de estudios. Nos proponemos crear tópicos y referenciar el camino que nos llevó a su abordaje en el ámbito de nuestras investigaciones. Primeramente enunciamos una perspectiva de la antropología digital en la educación – cómo los medios digitales pueden contribuir para la enseñanza basada en la experiencia y personificación de la etnografía y de la antropología. En segundo lugar, analizamos la antropología digital como una consecuencia de prácticas anteriores, desarrolladas por la antropología visual – antropología visual digital. El tercer, que llamamos antropología de la sociedad digital, se inserta en el cuadro general de una antropología contemporánea del cotidiano, teniendo como objeto de estudio la sociedad y la cultura digitales. Finalmente, abordaremos las perspectivas de la “reflexibilidad” en antropología en la era digital, o sea, como se reconfigurará la “reflexibilidad social” en la era digital. |
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Texto de la comunicación:
Introdução A presente comunicação decorre da confluência de três vectores. O primeiro está relacionado com o ensino da antropologia e da antropologia visual em situação de ensino a distância e no acompanhamento, supervisão e orientação de projectos de investigação no âmbito de mestrado e doutoramento e consequente da utilização das tecnologias digitais nos processos de ensino/aprendizagem e de interacção com os estudantes. O segundo decorre do crescente interesse dos estudantes em abordarem problemáticas relacionadas com a cultura e os artefactos digitais (videojogos, interacções sociais em rede, comunidades de prática, comunidades virtuais). O terceiro vector de convergência para esta temática resulta da cooperação entre os programas de investigação do Laboratório de Antropologia Visual da Universidade Aberta com o Núcleo de Pesquisa em Hipermédia da Pontifícia Universidade de São Paulo. Estes três eixos levaram-nos ao desenvolvimento do projecto de pesquisa Tecnologias Digitais em Antropologia em desenvolvimento desde 2004 e no âmbito do qual se realizaram inúmeras actividades de formação (seminários, workshops, conferências, demonstrações), de investigação (projectos experimentais e desenvolvimento de protótipos) e de produção (audiovisual e hipermedia) realizadas em Portugal (Universidade Aberta) e no Brasil (Universidade Mackenzie, Pontifícia Universidade de São Paulo, Universidade de São Paulo) e à formulação de novos projectos de pesquisa Tecnologias da memoria e narratividade visual digital, incidência local da cultura global digital. Destas actividades surgirão duas publicações Antropologia Visual e Hipermedia (hipermedia e livro, em fase final preparação). Paralelamente surgiram reformulação dos programas de investigação, criacão de novas áreas de formação (Cultura Sociedade e Novas Tecnologias) e a inscrição de projectos de doutoramento. Este processo articula-se com alguns desenvolvimentos de uma hipotética antropologia digital que de diversas formas, algumas incipientes, outras de grande fôlego, vão surgindo um pouco por todo o mundo. Destes destacamos: EHE – Etnographic, Hypermedia, Enveronement (1), Fiji – A Digital Etnography (2), Xiakou - A Digital Etnography of Landscape (3), Hypermedia and Qualitative Research (4), DEW - Digital Ethnography Workgroup (5), Digital Anthropology, Spring 2003 (6), Digital Anthropology Resources for Teaching (7). Esperamos encontrar neste eixo temático - Crítica e Inovação, do Congresso Conhecimento Aberto, Sociedade Livre e sobretudo no grupo de trabalho – Etnografias do Digital um espaço espaço de reflexão, de debate e de aprofundamento de nossas inquietações. 1. Antropologia digital como estratégia de ensino experiencial personificado "A tecnologia é apenas uma das muitas forças que guiam a história humana. A política, a religião, a economia, as ideologias, as rivalidades militares e culturais são pelo menos tão importantes como a tecnologia. A tecnologia dá-nos apenas ferramentas. Os desejos e instituições humanas decidem o modo como essas ferramentas são usadas" (Dyson, 1999:15). Em Maio de 1997 o campeão mundial de xadrez Gary Kasparov era derrotado (8) pelo Deep Bue, um programa de computador da IBM. Parecia que a sociabilidade e a disputa entre humanos no jogo se perdera, assim como a arte do jogo de xadrez ficava irremediavelmente confiada às bases de dados que permitiam ao computador dar uma resposta fria à criatividade dos humanos. Esta parece uma situação desmoralizadora de utilização das tecnologias digitais. Talvez mais (des)moralizadora ainda quando pequenas máquinas se vão instalando progressivamente nas nossas mãos, nas mãos de nossos estudantes, de nossos filhos e netos tornando-nos viciados nos computadores ou quando sentimos que a Internet vai minando, permeando toda a nossa sociedade e alterando o nosso modo de vida. A derrota de Kasparov é semelhante à do grupo de operários que, nos finais do Século XVIII e princípios do Seculo XIX, revoltados contra a introdução das máquinas automáticas, decidiram destruí-las pensando que assim paravam a revolução industrial (9). Constitui também a metáfora da condição humana que se deixou surpreender pelo crescimento das redes de interacção digital. Não temos poderes para destruir as máquinas e as redes e os seus efeitos, mas temos o poder de as compreender e de influenciar o seu funcionamento, a responsabilidade de as colocar ao serviço do desenvolvimento e condição humanos. Aponta-se por vezes que os conceitos, ou as teorias comandam as revoluções científicas e sociais. Não será necessário pensar até que ponto as mudanças tecnológicas (10) trazem consigo desafios e consequências sociais mais profundas que as produzidas pelos conceitos e pelas ideias? Será possível entender-se de, forma separada, tecnologia e condição humana? A primeira perspectiva de desenvolvimento de uma antropologia digital, ou de uma antropologia (social ou cultural) da sociedade digital, seria obviamente - uma antropologia das transformações sociais e culturais na era digital. Partimos no entanto de outro lugar, talvez mais próximo de nossa actividade profissional de professores, ou de professores de antropologia, deixando para mais tarde os temas, tópicos e actividades de investigação. Poderão as tecnologias digitais contribuir para melhorar o ensino da antropologia? Antropologia digital e convergência cultural Constatamos que por um processo normal de arrastamento e de "convergência cultural" nos servimos dos media digitais na nossa vida académica como meios de armazenamento e consulta (Internet, bases de dados), de produção textual (processamento de texto e imagem) ou de formas de ensino e exposição dos resultados de pesquisa (powerpoint), de contacto e comunicação (email, msn, chat). Por "convergência cultural" entendemos: processo através do qual as pessoas no seu dia-a-dia usam os media e em relação a cada um deles fazem avaliações acerca do modo como cada um serve melhor objectivos específicos, concentram informação proveniente de múltiplos canais de comunicação e acolhem os trabalhos de arte que dependem da apropriação e nova combinação de materiais culturais ou de arquivos e sua colocação em circulação de textos de media anteriores. Algumas destas mudanças reflectem os nossos encontros iniciais com os media digitais, mas estas mudanças estão a ser sentidas em todas as áreas da cultura popular e algumas delas preparam mais do que respondem à penetração crescente da Net, da Web, e do computador pessoal nas nossas vidas quotidianas. [...] As propriedades de um meio podem treinar-nos nas capacidades perceptivas e cognitivas que necessitamos para adoptar media futuros. Como Lev Manovich (1996b) escreve: "Gradualmente o cinema ensinou-nos a aceitar a manipulação do tempo e do espaço, a codificação arbitrária do visível, a mecanização da visão, e a redução da realidade a uma imagem em movimento como um dado adquirido. Como resultado, o choque conceptual da revolução digital não é experimentado, hoje em dia, como um choque real pois estamos preparados para ele há muito tempo" Talvez tenhamos já uma vaga impressão de que a utilização intensiva dos media digitais no ensino cria alguma turbulência institucional e sobretudo uma grande exigência de formação e desenvolvimento profissional dos docentes e mudança de hábitos e de atitudes dos alunos. Talvez os contornos destas mudanças no capital humano ainda não sejam suficientemente claros. São pois nossos objectivos neste ponto do trabalho inquirir sobre as potencialidades de uma hipotética antropologia digital e tentar encontrar respostas para algumas perguntas: A utilização das tecnologias digitais no ensino surge no contexto de uma moda ou de uma forma de "convergência cultural" em que se exploram as funções mais elementares de armazenamento e consulta ou como forma inovadora capaz de incorporar uma multiplicidade de estratégias interactivas, que permitam o desenvolvimento de um ensino/aprendizagem personificado (personalizado), participativo, colaborativo e experiencial (mesmo que a experiência seja simulada e/ou diferida)? Poderão as tecnologias digitais e o e-learning contribuir para transformar o ensino entendido como um processo de transmissão de conhecimento, baseado no fluxo de informação num só sentido e na aquisição de conhecimento decorrente do ouvir e ler num processo em que o aluno pode empreender percursos de aprendizagem que passem além destas, ainda que necessárias, formas de aprendizagem? Que turbulências cria esta situação no capital humano e na cultura institucional? E-learning no ensino da antropologia A natureza específica da disciplina e do conhecimento que se deseja que os alunos possam desenvolver cria alguma especificidade na utilização das tecnologias digitais? Como podem as tecnologias digitais contribuir para o desenvolvimento da formação em antropologia, do ensino experiencial (baseado na experiência) de modo a ter em conta dois dos mais importantes vectores de desenvolvimento desta área de saber – o trabalho de campo (experiência do trabalho de campo), a construção intercultural dos saberes e a consequente produção textual (criação/produção de narrativas multissemióticas), a disseminação e utilização dos saberes? Este processo de ensino remeter-nos-á para modelos ou paradigmas antropológicos ou de investigação em antropologia? É consensual que a utilização mais frequente das tecnologias digitais se situa essencialmente no âmbito de consulta ou recolha de informação já existente – utilização da Internet ou das bibliotecas e arquivos, e do armazenamento, organização e processamento da informação de modo a obter um produto final – preparação para exame ou produção de um ensaio. Em situações mais elaboradas de utilização das tecnologias digitais estarão formas criativas de produção visual, audiovisual e a sua integração com a escrita (hipermedia). A incorporação das tecnologias digitais como forma inovadora capaz de incorporar uma multiplicidade de estratégias interactivas que permitam o desenvolvimento de um ensino/aprendizagem personificado e baseado na experiência (mesmo que em parte diferida) passa, em nosso entender, por criar e explorar modelos de ensino/aprendizagem em em que os dados resultantes da investigação possa ser partilhados com os estudantes. Assim o acesso aos dados (fonte primárias – notas de campo, registos visuais e sonoros), o trabalho colaborativo em rede, a aprendizagem e o trabalho criativo de utilização das fontes (e da teoria) na criação discursiva estimularão o pensamento crítico, as estratégias analíticas e a co-responsabilização pela obtenção e partilha dos resultados. Estas apoiam-se e inspiram-se em trabalhos recentes de antropologia cognitiva e de teorias construtivistas em educação em que se abordam diversos modos de aquisição do conhecimento e do desenvolvimento conceptual (Ulric Neisser, 1983; Dan Sperber e Dierdre Wilson, 2001 Jean Lave e Etienne Wenger, 1991; Maurice Bloch, 1991; Tim Ingold, 2000, H. Gardner, 1995, Vygotsky, 1974, Shneiderman, 2006). Centram-se mais na aquisição de processos de cognição (11), de produção de conhecimento que na sua transmissão/aquisição. Os caminhos a percorrer, na criação de novos modelos e utilização de recursos na formação em antropologia, passam por uma estreita colaboração entre os professores e os especialistas em tecnologias ou pela formação dos antropólogos (12) em tecnologias (a antropologia visual desenvolveu no âmbito da utilização da fotografia e do cinema estas duas formas) e pela centralidade da investigação (do processo de investigação – do terreno ao texto, ao discurso) ou desenvolvimento de projectos no processo de aprendizagem. Reforçamos assim a inseparabilidade entre a investigação e o ensino mesmo que esta crie nas instituições e na provável atitude dos alunos algumas turbulências ou mudanças profundas (número de alunos, compatibilização entre a investigação e o ensino, capital humano e tecnológico, autoridade do professor, responsabilidade do estudante, mentalidade decorrente do processo autoritário de transmissão de saber). Embora a antropologia utilize uma grande diversidade de métodos (e técnicas) de pesquisa, o trabalho de campo e a observação participante continuam a ocupar uma insubstituível centralidade a que os estudantes só residualmente acedem. Acresce ainda que esta actividade central no processo de pesquisa é, por si só, responsável por uma grande variedade de informação (dados) susceptível de poderem ser utilizados pelos estudantes como recursos de aprendizagem: notas interactivas de campo, entrevistas visuais (vídeo), fotografias, diários de campo, ligações (links) a arquivos digitais e à literatura secundária, organizadas de forma interactiva. Assim as notas interactivas de campo serão tópicos navegáveis, que permitam aos estudantes descobrir processos pelos quais os dados brutos de campo são transformados pela análise e síntese em formas publicáveis; as ligações à literatura existente serão estabelecidas pelas notas de campo, tornando explícita a pertinência da etnografia específica de, por exemplo, uma cena da vida familiar quotidiana, a utilização de um jogo, uma prática ritual com o debate teórico. Também as diversas inscrições de terreno – fotografias digitais, entrevistas em vídeo, diários e notas de campo, música, modelo de design de investigação poderão ser utilizados de modo a permitir que os estudantes preparem melhor os seus trabalhos, adquiram o mais aprofundadamente possível a experiência de trabalho de campo em antropologia e criem ferramentas (conceptuais e tecnológicas) que lhes permitam desenvolver o seu trabalho de campo, identificar problemáticas, criar instrumentos analíticos de uma maneira mais activa (interactiva), mais pertinente, mais significativa. Remeter-nos-á este modelo para paradigmas antropológicos epistemológicos específicos ou será aplicável a qualquer modelo de investigação? Antropologia digital e paradigmas de investigação em antropologia Numa primeira abordagem, este modelo de aprendizagem, parece remeter-nos para as influências de Writing Culture (Clifford e Marcus, 1986 e de Anthropology as Cultural Critique Marcus e Fisher, 1986) na antropologia, ao questionar a noção de "terreno", como lugar objectivo circunscrito num espaço e num tempo, apontando para uma antropologia multissituada (no espaço, tempo e posicionalidade) visando harmonizar a mobilidade das forças sociais (deslocalização) com a sua fixidez (local), para a pluralidade de interpretações dos fenómenos sociais (pluralidade de vozes) e para formas dialógicas de abordagem do "terreno" e de construção discursiva. Remetem para formas mais criativas, mais conscientes e mais participativas de escrita sem perda das qualidades da investigação académica do passado (Anderson, 1999). Clifford sugere que embora a etnografia não possa escapar ao reducionismo, pode mover-se além das molduras historicamente abstractas (1988:23). Seguindo esta via, os media digitais em etnografia podem ser um meio de expandir determinados aspectos tradicionais da disciplina, tais como a estrutura narrativa, a intersubjectividade, a polivocalidade, as linearidades e a utilização pedagógica. Contendo potencialidade de conjugar várias formas de análise, de reflexão, de interpretação, e de vozes (incluindo a dos sujeitos da pesquisa), tem o potencial de ir além do processo de "descrever" a cultura para tentar o centro da própria "experiência da cultura". Experiência como processo em que o utilizador dos media digitais, na sua perspectiva hipermediática poderá adoptar ao fazer o seu estudo e análise antropológica, projectar sua própria pesquisa, interpretar de formas múltiplas a informação etnográfica (Anderson, 1999). O trabalho de investigação em Antropologia é por si próprio hipermediático (13) na medida em que envolve a observação multissensorial, a elaboração das inscrições locais – registos, transcrições, as ligações entre saberes (locais e globais, micro-sociais e macro-sociais, concretos e abstractos), entre dados e teoria. A própria situação do trabalho de campo poderá entender-se como um processo de imersão semelhante ao do utilizador no hipertexto/hipermédia embora de natureza muito mais complexa (liminaridade, trajectórias não lineares, metamorfose, multiplicidade, descentramento, orquestração) e a apresentação final dos resultados (integração da experiência realizada na instituição - antropologia) uma forma de criar todo o tipo de ligações múltiplas entre dados e interpretação, múltiplos intertextos: decorrentes de múltiplas vivências, qualidades perceptivas, perspectivas de observação e análise, de confronto entre os dados e a teoria, ou mesmo a selecção e utilização dos media que se vão incorporando na investigação e na relação com o terreno, com os pares, com a comunidade científica, com as instituições. Trata-se pois de um processo de montagem (Piault, 2000, Tomas, 1994, Ribeiro, 2000, Bairon, 2003) ou de edição (14). Permitindo armazenar e organizar uma grande quantidade de informação, as tecnologias digitais e hipermédia tornam possível apresentar todo o percurso de um investigador, articular o processo desenvolvido ao longo de décadas e as contínuas reescritas do percurso. Os diversos estudos acerca de uma mesma problemática ou a partir de um mesmo terreno poderão igualmente ser objecto de integração. Claro está que os media digitais levantam problemas específicos de natureza ética, política e epistemológica como antes acontecera com a escrita ou com as imagens. Esta é uma questão central na reflexão sobre a utilização dos novos media na investigação. O valor pedagógico (15) da utilização do hipermédia em antropologia é pois reconhecido pelas potencialidades de incentivar os utilizadores a desenvolver práticas específicas, que permitem não apenas conhecer os resultados finais de uma determinada pesquisa, mas também aceder aos dados e às interpretações e a partir destas reconstruir os processos de análise e de interpretação ou de distanciamento crítico e criativo com a procura de novas interpretações, recriando todo o percurso do terreno ao texto, ou a si próprio – utilizador/actor do conhecimento. Com efeito, na medida em que se torna possível organizar uma grande quantidade de informação, facilitar a acessibilidade e conceber múltiplas relações entre a informação organizada, o hipermédia possibilita ao utilizador: Trabalhar sobre os dados reunidos na pesquisa, confrontar-se com a interpretação do investigador, integrar novas interpretações, sujeitar suas interpretações a processos contínuos de reformulação explorando as enormes possibilidades de cruzar referências; Integrar, no processo de aprendizagem, representações multissemióticas –actividade verbal, visual, sonora e audiovisual e tradições que secularmente caminharam em paralelo, a par, nem sempre sem conflitos – a antropologia escrita e a antropologia visual (audiovisual); Delinear o seu próprio caminho (ou reconhecendo os caminhos propostos, aceitando-os ou recusando-os) explorando todas as formas de intertextualidade: entre os dados e as interpretações, entre dados escritos visuais e sonoros e as interpretações resultantes dos processos de montagem (edição visual, sonora, audiovisual). Na tradição da antropologia visual, as tecnologias de representação (fotografia, cinema, audiovisual) tornaram-se instrumentação e objecto de pesquisa. Com efeito, estes tornaram-se formas simbólicas de épocas anteriores, transformaram os comportamentos sociais e integraram-se na vida quotidiana dos indivíduos, dos grupos sociais, das sociedades. Assim actualmente os media digitais e o hipertexto/hipermédia progressivamente vão-se instalando no quotidiano das sociedades actuais, "representar a informação digital no ecrã é visto como a forma simbólica da nossa época" (Johnson, 2001). 2. Antropologia digital e tecnologias da representação Na segunda perspectiva, a antropologia digital surgiu no nosso trabalho na sequência de práticas anteriores desenvolvidos no âmbito do que se convencionou chamar antropologia visual não obstante as profundas mudanças resultantes da passagem da representação analógica à digital. O desenvolvimento das tecnologias da representação (fotografia, cinema, vídeo, novos media) e a antropologia fizeram um percurso paralelo reveladores dos contextos históricos e sócio-políticos. Ambas nasceram como resultantes da sistematização analítica do fim do século XIX, não se tratando apenas de uma coincidência mas de uma participação comum num mesmo processo de observação científica e da expansão industrial (Piault, 1992 e 2000). Esta relação entre as tecnologias da imagem e do som, as linguagens que com elas emergem e a antropologia são apresentadas por alguns autores como uma história paralela. Christopher Pinney (1992) e Sylvain Maresca (1996), história paralela da fotografia e da antropologia; Marc Piault (1992 e 2001), da antropologia e do cinema; Jenkins (2003), Mason e Dicks (2003) em relação às tecnologias digitais. O espaço e o tempo mudaram com o desenvolvimento das tecnologias da representação e da comunicação e a antropologia mudou porque a relação espaço/tempo se alterou profundamente. Se esta questão é central no cinema e nas novas tecnologias da informação, comunicação e conhecimento é também igualmente central na antropologia. Ganha no entanto uma maior e mais acentuada especificidade com o desenvolvimento dos media de massa e dos novos media digitais (Augé, 1997, Castells, 1999, Geertz, 2000). A história paralela entre a antropologia e as tecnologias da representação e comunicação não é, pois, apenas constituída por uma simultaneidade de factos, mas pela forma de apreensão da realidade, pelas metodologias exploratórias baseadas no olhar, na construção do olhar (a observação) e no ouvir (as palavras) e na poética das construções discursivas e narrativas em antropologia e no cinema, sobretudo no cinema documentário. Não basta porém analisar as propriedades dos sistemas visuais e suas estratégias discursivas mas também as condições da sua interpretação, relacionando esses sistemas particulares com as complexidades dos processos políticos e sociais dos quais são parte, mas também reduzir as teorias antropológicas da cultura para as teorias do cinema (Ruby, 1989; Chiozzi, 1989; Canevacci, 2001). A antropologia evoluiu e desenvolveu-se paralelamente à fotografia, ao cinema e mais recentemente aos novos media digitais revelando as mudanças dos processos históricos, sociais e políticos que os formatam. A antropologia visual surgiu na segunda metade do século XIX quando a fotografia e o cinema surgem como inventos (invenções técnicas) importantes, mas também como contributos relevantes para as ciências, para as artes e para o preestabelecimento de novas relações entre as ciências, as artes e os contextos históricos, ideológicos e culturais no âmbito dos quais surgem estes inventos e a sua utilização. A partir da segunda década do século XX quando no cinema surge a valorização montagem e da linguagem cinematográfica a antropologia visual ganha novos recursos. Paralelamente o documentário ganha relevo (Flaherty e Vertov) e solidifica-se a antropologia de terreno com o trabalho de campo realizado por antropólogos, Bronislaw Malinowski - Argonauts of the Western Pacific (1922), ensaiando quase simultaneamente metodologias semelhantes às do documentário (Flaherty e Malinowski) na abordagem da realidade social, dos factos sociais e culturais. A partir anos 60 a observação como actividade visual, saber ver, é acompanhada de palavras e sonoridades localmente produzidas, saber ouvir, saber escutar. Junta-se assim o som directo às imagens no cinema, no documentário e na antropologia. A partir dos anos 70 surgem as tecnologias vídeo e os computadores. Estes tornaram-se sucessivamente mais baratos, acaessivies, rápidos, potentes, interconectados e capazes de reunir num único media as tecnologias de comunicação (16) e de representação. Estes constituem pois uma continuidade e um potencial avanço na medida em que incorporam potencialmente todos os media anteriores, diluem as especificidades de cada um, facilitam a intertextualidade e mestiçagem das linguagens anteriores (Shohat e Stam, 2002). Assim as novas tecnologias digitais e o hipertexto/hipermédia constituem uma forma, porventura mais eficaz, de integração da antropologia visual com a antropologia e da antropologia com a antropologia visual; das imagens, sons e audiovisuais com a escrita; dos filmes com a reflexão teórica – todo o aparelho crítico do filme (produção, utilização, reflexão teórica). Os novos media (tecnologias digitais) abrem novas perspectivas da antropologia visual como a fotografia, vídeo e cinema digitais e com edição multimédia/hipermédia e tornam-na possível pela maior acessibilidade dos meios, mas sobretudo diluem fronteiras e desconfianças. Ao integrar os media anteriores (áudio-scripto-visuais) diluiu as fronteiras, alargou seus utilizadores, solidificou bases teóricas e epistemológicas, dissolveu as desconfianças entre as representações escrita e imagética. As práticas tradicionais da etnografia – investigação, museologia, escrita, sonora, visual, audiovisual, caminham numa perspectiva de integração. Assim os métodos de investigação são cada vez mais metodologias e tecnologias de investigação, de disseminação de saberes, de criação e desenvolvimento de uma sociedade de conhecimento, de reflexividade e de "inteligência colectiva". Poderemos dizer que a sociedade do conhecimento inclui formas de compreensão e comunicação informatizadas, e também ensaios alternativos de actividade política presencial, neocomunitária, e ainda usos heterodoxos das tecnologias de ponta – Internet, telefones celulares, bancos de dados – para promover formas de sociabilidade e organização alheias à aliança de tecnologia-informação-mercados. É esta perspectiva que abordaremos a seguir como novo campo de observação e análise da antropologia e da antropologia visual. 3. Antropologia da sociedade (e dos artefactos) digital O terceiro tópico de desenvolvimento desta reflexão aponta para o que poderemos denominar antropologia da sociedade digital. Situamos esta temática no quadro geral da antropologia contemporânea e da antropologia da comunicação visual digital, tendo como objecto de estudo a sociedade e a cultura digitais contemporâneas. Antropologia da sociedade digital visa estudar as relações entre o homem e a tecnologia na era digital. Trata-se de um tema clássico da antropologia – antropologia e tecnologia, desenvolvida sobretudo a partir das tecnologias tradicionais que se reequaciona, redefine, reconfigura nas sociedades actuais. Compreende pois um amplo campo de investigação. Este porém é aparentemente delimitado quando tomamos em consideração as tecnologias digitais como tecnologias da comunicação criando um âmbito mais específico de antropologia dos media, antropologia da comunicação mas realmente muito mais amplo por, nas sociedades contemporâneas, promoverem formas de sociabilidade e organização alheias à aliança de tecnologia-informação-mercados (Canclini, 2004) como, para citar só alguns, os encontro na Internet, os jogos e outras formas de entretenimento, controlo social, novas formas de organização, consciência e compreensão do mundo ou mesmo, e de uma forma mais global, a ideia da Internet como paradigma da própria sociedade e cultura contemporâneas. Sociabilidade Virtual – Encontros e sexualidade na Internet A Internet não foi o primeiro meio a interessar-se por fenómenos sociais como a criação de oportunidades de encontro, a sexualidade (17), a indústria da pornografia, etc. Estes já tinham sido explorados pela imprensa, telefone, cinema, vídeo mas é sobretudo com o desenvolvimento da troca de mensagens, dos chats e dos MUDs (jogos interactivos de papéis), newsgroups, webcam que adquirem a relevância actual. Se se torna relevante estudar fenómenos como o papel pioneiro dos sítios pornográficos na Web no desenvolvimento da economia da Internet no que se refere à segurança mas sobretudo aos percursos dos utilizadores, à recolha de informação online, e ao web marketing, torna-se necessário estudar a prevalência e mudança dos comportamentos sociais (corpo na sociedade virtual) e sexuais (separação entre as funções de reprodução e/ou prazer do contacto e convivialidade humana na sexualidade virtual) com o advento da Internet. Jogos e narrativas visuais digitais História dos jogos digitais (videojogos). Ambiente, regras, personagens, narrativas, aprendizagem e moral dos jogos. Os estereótipos como são percepcionados pelos utilizadores dos jogos digitais. A investigação neste domínio é muito aberta e vai da continuidade e a mudança entre os jogos e narrativas tradicionais (18) e os jogos e narrativas digitais ou ainda experiências culturais comuns entre os jogos digitais, as narrativas digitais e os passeios virtuais na Internet ou no hipermédia (intertextualidade electrónica) – formas de cultura visual digital (Darley, 2002). Para além desta perspectiva mais tradicional da investigação em antropologia, questiona-se também o como a "Teoria dos Jogos" concebida em 1944 por dois matemáticos Oskar Morgenstern e John von Neumann migrou para a sociologia, a antropologia e para a biologia. Na biologia, a "Teoria dos Jogos" encontrou grande receptividade na zoologia em geral e na etologia em particular quando se percebeu que os animais também "jogavam", em muitos casos de forma análoga ao homem. Neste ponto, houve a mistura de conceitos e disciplinas diversas, o que dificultou a compreensão do todo. Seria a matemática ("Teoria dos Jogos") explicando o comportamento animal (etologia) que, por sua vez, explicaria o comportamento humano (Sociologia e Antropologia) que levaria a consequências no dia-a-dia humano (economia, administração, direito, psicologia, etc.). Comunicação e controlo na era digital Os processos sociais e culturais estão em processo acelerado de mudanças, são sucessivamente reconstruídos e reconfigurados. Muitas destas reconfigurações devem-se aos media e aos media digitais "os computadores pessoais têm de facto influenciado a construção de novos espaços sociais e culturais, em que as identidades devem ser re-negociadas" (Boskovic). O poder dos media foi tradicionalmnete reconhecido pelo menos desde McLuhan (1964), posteriormente questionou-se como os media, sobretudo a televisão e as agências internacionais de notícias, influenciam as pessoas tornando-as robots obedientes, actualmente são sobretudo as perspectivas do panopticon (noção foucaultina do regine panóptico) que instala um olhar unidireccional. Por outro lado, os media digitais permitem também melhorar a participação em processos democráticos locais na medida em que tornam mais facilmente disponível a informação política, permitem a mais fácil participação através do voto electrónico, a organização de grupos locais de interesse e de redes cívicas. Homens e máquinas numa arena potencial planetária, misturam e misturam-se para dar forma a objectos e a experiências culturais novas. Destas umas das mais notáveis diz respeito à cultura visual resultante de novas e imprevisíveis maneiras de interacção entre os media (o rádio, o cinema e a televisão absorvidos pela Internet, a televisão que absorve a internet e o cinema), da expansão dos media existentes (cabos de fibra óptica, algoritmos novos da compressão, transmissão de informação wireless), do modo como cada vez mais funções humanas (inteligência artificial, reconhecimento de voz, programas de tradução, potencialidades de visão e percepção, aumento da capacidade de armazenamento e tratamento digital da informação) e de muitos outras possibilidades ainda desconhecidas que urge estudar como cultura empírica visual. Como resposta aos media de saturação e manipulação surgem media de resistência que propõem um distanciamento crítico que leva, no limite, ao ignorar os media ou a um distanciamento criativo que sugere a subversão ou a criação de media alternativos considerando ser possível fazer a subversão a partir de dentro, através de uma série de pequenas etapas. Internet e novas formas de consciência e compreensão do mundo (sociedade do conhecimento: a construção intercultural do conhecimento) O papel da Internet na organização do 11 de Setembro, ou de grupos terroristas, ou na organização da luta antiterrorista, ou dos telefones móveis SMS em 13 de Março de 2004 em Espanha (Rheingold, 2004) demonstram a importância que poderão ter, não apenas como novos modos de organização, mas também nova forma de consciência e compreensão do mundo e até no surgimento do indivíduo com consciência planetária. Os debates sobre a sociedade da informação e do conhecimento advêm da necessidade de recorrer a muitas formas de "diversidade cultural". Algumas antigas como as decorrentes das línguas, religiões, etnia e modos de organização social outras associadas à modernidade – diferenças entre classes sociais ligadas à industrialização, entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, entre modos diferentes de acesso à informação e entretenimento baseadas no sexo, idade e nível escolar. Como se realiza, na era digital e através dos media digitais, a construção multicultural dos saberes? A reabilitação da memória? Possível fomentar o sentido social com consensos interculturais? O extraordinário aumento do conhecimento pode tornar-se forma efectiva de comunicação (mais que informação) capaz de construir formas novas de "coabitação cultural"? Internet e Sociedade Frequentemente, a Internet é considerada uma maneira de caracterizar a nossa época. No entanto, as opiniões dividem-se entre pontos de vista divergentes: alguns pensam que a Internet é trivial ou um fenómeno marginal; outros consideram-na uma evolução empolgante, com oportunidades incomensuráveis (Slevin, 2000: 11). Uma coisa é certa, trata-se de um medium que se expandiu a um ritmo prodigioso, integrou os media anteriores numa ampla rede interactiva, estruturou e continuará a estruturar toda a vida social. Um amplo campo de investigação sobre a sociedade digital a que acrescentamos apenas o desafio de William Mitchell "precisamos de aprender a construir etopias – cidades electronicamente servidas para o alvorecer do novo milénio… cidades enxutas ecológicas capazes de trabalhar de maneira mais inteligente" baseadas na "desmaterialização, economia de recursos, personalização em massa, operação inteligente transformação subtil" (2002:224). Perguntamos: o que prevalece e muda? O local e as interacções pessoais prevalecerão? Como se reconfigurarão neste novo cenário as identidades, a cultura e a sociedade? 4. Reflexividade em antropologia na era digital O objecto de estudo da antropologia não é (totalmente e só) exterior ao investigador, isto é, somos parte do mundo que estudamos. Isto não é apenas uma questão metodológica mas também um facto existencial. Não há nenhuma forma que permita situarmo-nos completamente fora, no exterior do mundo social para depois o estudar, nem isso é necessário. Também não há forma de investigação em antropologia que não confie no saber local (na racionalidade local, no saber nativo, no "ponto de vista do nativo", no senso comum), revelado a partir das vozes locais dos informantes, actores sociais locais. Nem mesmo é possível iludir ou neutralizar os efeitos da presença do antropólogo no terreno, no trabalho de campo, na escrita – em todas as fases do processo de investigação. Esta situação torna-se mais evidente na sociedade actual, na sociedade globalizada pelos media, pela circulação de pessoas (migrações, turismo) e bens (capitais, mercadorias, bens culturais). Estudar como os informantes respondem à presença do investigador e do mundo ou cultura que consigo transporta pode ser tão importante quanto as respostas a qualquer outra situação, "a especificidade e individualidade do observador estão sempre presentes e têm portanto de ser reconhecidas, exploradas e usadas criativamente" (Okely, citado por Davies, 1999:8). Finalmente os métodos da etnografia, não são mais que o desenvolvimento e o refinamento de actividades da vida quotidiana – observação, participação, conversas, entrevistas, leitura e interpretação de documentos, ou mesmo fotografias, registos áudio e vídeo, etc. A moral que se tira disto é que qualquer investigação social toma a forma de investigação participante: implica participar no mundo social, qualquer que seja o seu papel e reflectir sobre os efeitos dessa participação. Indistintamente do método utilizado, na essência não é diferente de outras formas de actividade prática quotidiana ainda que esteja mais próximo de uma que de outras. Como participantes no mundo social também somos capazes de, pelo menos em antecipações ou retrospectiva, observar a nossa actividade «de fora» como objectos no mundo. Certamente é esta capacidade que nos permite coordenar as nossas acções. Ainda que haja diferença nos propósitos e às vezes também no refinamento do método, a ciência não emprega um equipamento cognitivo de um tipo essencialmente diferente ao que está disponível para outros cientistas. Não se trata neste processo e na relação antropológica da identificação entre «Eles» e o «Nós», em colocar os dois termos como iguais, mas questionar o investigador acerca do modo como constrói a relação com o outro, (objecto) sujeito da investigação e através delas a relação entre historicidades, estruturas sociais, culturas, sociedades. Não se espera a identificação do investigador com as pessoas estudadas, nem a substituição do saber localmente construído, utilizado, socializado (nas interacções e nas estruturas sociais locais) – o saber nativo pelo saber do antropólogo, global, inserido em redes de interacção e estruturas sociais mais amplas de debate teórico. Nem mesmo se espera que a relação e a consideração pelo saber localmente construído e pelas pessoas envolvidas na investigação seja paternalista, humanista, moralista. A reflexividade tem algumas implicações metodológicas importantes. É impossível basear a investigação social na natureza e nos fundamentos epistemológicos do conhecimento local, a voz do nativo, mas no quadro diferencial da diferença. Esta diferença entre o saber nativo, o saber local, "próximo da experiência" e o saber científico, "afastado da experiência" (Geertz) não é uma diferença de natureza, mas de grau, residindo na extensão das redes em que se situam, nas finalidades – agir localmente baseado na unidade temporal do conhecimento e da acção para o saber local ou extrair a informação da temporalidade e do âmbito do local (sujeitos e locais das pesquisas específicas) para os reportar ao presente da ciência e do leitor ao qual se dirige para o saber global (Kilani, 1994). A diferença de saberes não afasta, no entanto, a tomada de consciência de outros saberes, a negociação e comunicação entre saberes, e mesmo a "procura de um sentido crítico comum" (Hammersley e Atkinson, 1994). Isto também tem repercussões na prática da investigação. Uma vez que é recusada a estandardização dos métodos (definida pelo modelos e exigências disciplinares, não adaptados às exigências e situações específicas de terreno) ou a pesquisa escondida (buraco de fechadura, metamorfose da «mosca na parede» ou participação total), o papel do investigador, como participante activo no processo de investigação, torna-se mais claro – a sua presença torna-se um instrumento de investigação por excelência e como tal a ser explorado criativamente. O facto de o comportamento e atitudes do investigador variarem com frequência, dependendo dos contextos (adaptação ao terreno) faz com que tenha um papel importante na configuração desses contextos e por isso se torne central na análise. A informação recolhida no processo de pesquisa não pode ser tomada acriticamente pelas suas aparências, apenas como descrição, mas servir como campos de inferência de hipóteses interpretativas, de exploração de estratégias de investigação que possam conduzir a conclusões, explicações ou alternativas teóricas baseadas na "indução analítica" e na "teorização fundamentada" (Hammersley e Atkinson, 1994:33) ou "na explanação que se constrói na tensão criativa entre a abstracção teórica e o detalhe descritivo" (Davies, 1999:25). Também as teorias desenvolvidas pelos antropólogos para estudarmos o Outro (pessoas, estruturas sociais, sociedades, culturas) deveriam aplicar-se à nossa própria actividade como investigadores (pessoas, estruturas sociais, sociedades, culturas) e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de investigação – "Inventar o outro, é compreender-se a si mesmo como vivendo num mundo em que se pode, por contraste com o outro, delinear os contornos" (Kilani, 1994: 15). Esta compreensão não é apenas reflexiva em relação a si própria, mas colectiva em relação à sociedade e às estruturas sociais de pertença. No que se refere aos métodos e estratégias de investigação, a antropologia reflexiva aponta para a construção efectiva dos textos em antropologia. Esta perspectiva tem frequentemente a conotação de uma antropologia pós-moderna. Contém também uma crítica a esta prática. O primeiro passo tem a ver com o registo de dados do processo de investigação e as biografias de investigação. Desde há algum tempo, regista-se nos antropólogos a preocupação de um «retorno» ao sujeito da enunciação, uma tomada em consideração acrescida das situações discursivas e uma atenção mais marcada pela reflexividade do investigador. Poderemos por isso ver nas formas diário, narrativa, caderno de notas, história de vida ou mais geralmente nas formas de escrita de tipo «dialógico» ou «polifónico», géneros etnográficos terminados, como alguns queriam que fossem, capazes de substituir a escrita «monológica» tradicional como «forma de fazer» em antropologia? Nada parece menos seguro. Este primeiro passo surge como resultante de uma auto-consciência crítica em relação às metateorias e aos processos de escrita monográfica e nas suas manifestações mais radicais aponta para que a escrita em antropologia seja um "acto criativo individual mais semelhante à escrita de ficção do que a qualquer visão da pesquisa etnográfica como base de uma ciência social. Assim, tais produtos não estão realmente acessíveis à avaliação crítica de uma colectividade informada nem são compreendidos em termos de uma ontologia realista. Uma resposta a esta perspectiva tem sido a produção de trabalhos altamente reflexivos – mais relatos subjectivos da forma como o trabalho de campo afectou o etnógrafo do que relatos de compreensão ou perspectivas adquiridas acerca da natureza das outras pessoas... Outra abordagem favorecida é passar a apresentação ao outro pelo emprego do uso extensivo de transcrições de gravações com pouco ou nenhum comentário ou análise clara... Outras técnicas pós-modernas são esforços que permitem que a variedade de perspectivas apareça através de tentativas para ser multitextuais – no seu uso menos estandardizado, frequentemente materiais não verbais como fotografias e filmes, objectos de utilidade doméstica, o corpo, poemas – e multivocal – na sua apresentação de diferentes perspectivas sem tentar ordená-las ou avaliá-las" (Davies, 1999: 15-16). Outra forma de reflexividade, para que a perspectiva pós-moderna aponta, relaciona-se com as questões éticas e políticas decorrentes das actividades e do processo de investigação. Estas perspectivas mais radicais são frequentemente criticadas como excessivamente viradas para o interior, incapazes de apreender algo exterior a nós próprios e de conduzir a uma perspectiva pessimista e improdutiva da investigação em antropologia. Numa perspectiva de antropologia reflexiva, os antropólogos não poderão limitar-se às questões decorrentes da escrita por estritas razões normativas, para melhor fazer etnografia. Isto seria desconhecer o objecto fundamental da antropologia, que não é a descrição de um real positivo e trans-histórico, mas de um real resultante de um entrecruzar de olhares entre culturas diversas, histórica e culturalmente determinadas. Neste sentido, tem a antropologia actualmente de ser reflexiva e de efectuar um retorno aos lugares a partir dos quais, até agora, construiu o seu olhar sobre (acerca de) os outros. Neste movimento de "repatriamento", é inevitavelmente levada a interrogar-se sobre os seus pontos negros e os seus pressupostos teóricos que são o exotismo e a alteridade. A menos que se contente em repatriar consigo o tradicional e histórico olhar exótico, para o estender, sem alterar formas e processos, à sociedade moderna, na qual procura espaços marginais e pré-modernos prontos a tomar em conta a sua busca persistente do exotismo. [...] não se trata apenas de ficar naquilo que o investigador diz e edita a propósito da sua prática mas de se interrogar igualmente sobre o que fez, sobre a maneira como procede no texto etnográfico para dar forma aos seus objectos. Esta reflexividade do etnólogo sobre si mesmo parece justificar-se do ponto de vista da natureza e do projecto da antropologia. Com efeito, se o antropólogo pretende aprender coisas sobre a sociedade em geral e sobre a sua em particular por meio das culturas que toma por objecto, pode-se legitimamente admitir que a observação das práticas no interior da sua comunidade científica pode ajudá-lo a melhor compreender a forma de fazer e de pensar em antropologia. Os Media e a dimensão social colectiva da reflexividade Os antropólogos começaram também a considerar a dimensão social colectiva da reflexividade através da identificação dos processos reflexivos nas pessoas que estudaram. Para tal tem contribuído quer a alfabetização e participação das populações, quer o desenvolvimento e a globalização dos media. Esta perspectiva tem sido proeminente nos estudos dos rituais, do desempenho e na reconstituição da memória. O exemplo mais frequentemente citado é o da interpretação de Geertz da luta de galos em Bali como "uma leitura balinesa da experiência de Bali, uma história que eles mesmos contam sobre si próprios" (1991: 369) mas também o ritual cabo-verdiano Colá S. Jon, originários das ilhas do Barlavento e reconstituído nos países de imigração cabo-verdiana como "história de um povo que se conta a si mesmo e ao outro" (Ribeiro, 2000: 182), na Bugiada de Sobrado (Ribeiro) em que o desempenho dos papéis rituais é referenciado a um modelo literário de uma eventual escrita etnográfica e nos filmes First Contact (1982) de Bob Connolly e Robin Anderson e Rouch in Reverse (1993) de Manthia Diwara (19). Esta reflexividade social pode ser explícita, uma reflexão consciente deliberada e de um povo sobre si próprio, como em First Contact em que um habitante da Papua Nova Guiné confrontando-se com as imagens do primeiro encontro com o homem branco e com o acto de tornar o passado presente através da voz das pessoas que testemunham este primeiro encontro, toma a palavra e diz: "É necessário conservar este filme para que as novas gerações o possam ver. Assim poderão dizer entre si: eis como éramos!", ou na Bugiada de Sobrado em que a performance ritual e o desempenho dos papéis rituais remetem para um suposto trabalho do etnógrafo. Esta reflexividade é, no entanto, normalmente apresentada como sendo apenas completamente revelada através das considerações reflexivas do etnógrafo. Quando a reflexividade social explícita se combina com a reflexividade do investigador individual, ao reconhecer que os dados são um produto cooperativo, estas tendem a estimular a reflexividade de uma forma mais minuciosa e crítica que acompanha exigências de conhecimento e o desenvolvimento reflectido do ritual e dos desempenhos dos papéis rituais (Bugiada de Sobrado) ou a tomada de consciência da história local (20) em First Contact. Nesta perspectiva, o processo de investigação é mais claramente apreendido como um encontro no qual o conhecimento é construído dentro de um processo social em que se configuram relações diversificadas de poder (cooperação, implicação, autoritarismo, paternalismo, etc.) com óbvias implicações éticas e políticas. A reflexividade social não tem a ver apenas com o objecto de estudo mas também com a própria prática do trabalho antropológico, "a antropologia é uma parte dela própria. Qualquer afirmação acerca da cultura é também uma afirmação sobre a antropologia" (Crick citado por Davies, 1999: 9). O "também", acima referido, revela que o significado mais completo da reflexividade na investigação é conseguido quando for abandonado, e se demonstrar que a investigação social é essencialmente sobre si própria. Como refere Kilani "o antropólogo pretende aprender coisas sobre a sociedade em geral e sobre a sua em particular por meio das culturas que toma por objecto". A antropologia não existe em estado puro, isolado do seu próprio contexto. Seria paradoxal que a prática antropológica de situar as pessoas e os seus comportamentos, que estuda numa estrutura social, numa cultura, numa sociedade ou num determinado momento histórico, deixe de se aplicar a si mesma. "Se a sociedade está na antropologia, a antropologia por sua vez está na sociedade" (Lévi-Strauss). Nasceu numa determinada época e cultura, transformou-se profundamente com as mudanças sociais, interroga-se agora sobre as suas condições de produção. Os trabalhos dos antropólogos, qualquer que seja a forma da sua apresentação, informam-nos tanto sobre a sociedade do investigador, do observador, quanto sobre a sociedade do investigado, do observado. Situamos a reflexividade no processo de pesquisa ao interrogar-se sobre a validade dos métodos e sobre o questionamento teórico, referimo-lo como estratégia de construção discursiva e textual e como processo social de apropriação dos resultados da pesquisa. Esta apropriação diferencia-se ao longo do processo histórico e tem representações e eficácia diversificada quando se trata da etnografia ou da antropologia como texto escrito, como filme, como media digitais (CD-ROMs, DVD, Internet, computador pessoal, realidades virtuais). O filme parece superar algumas das limitações específicas da escrita – analfabetismo, diferenças linguísticas, incompreensão da retórica académica. As imagens ao funcionarem como processo referencial criam maior possibilidade de apropriação da representação etnográfica e antropológica mesmo que a retórica cinematográfica ou videográfica não seja totalmente compreendida e crie condições para o questionamento a partir da evocação de saberes laterais do espectador e comunidades representadas. Os filmes em antropologia constituiem frequentemente marcas significativas da apropriação e de referenciação da representação histórica de comunidades que se diziam a-históricas porque nenhum documento as referenciava. Os media digitais religam a escrita e as imagens, proporcionam ao utilizador uma maior quantidade de informação, uma cultura da velocidade e do fim das distâncias e uma apropriação interactiva que permite a navegação pela informação disponível, a utilização crítica, a criação de novas associações entre os dados (dados e realidade, dados e teorias), o acrescento de nova informação, o desenvolvimento do que se denominou inteligência colectiva - "comunidades humanas que comunicam no seu seio, que se pensam a si próprias, partilhando e negociando permanentemente as suas relações e os seus contextos de significações partilhadas" (Pierre Levy, 1997:242). Concluímos que a prática de pesquisa em antropologia abrange uma intrínseca reflexividade multifacetada sem se voltar de forma obsessiva para si própria; sugere que uma tal pesquisa incorpore as abordagens pós-modernas nas suas múltiplas perspectivas: dialogismo e polifonia, atitude crítica às meta-teorias e preocupações de natureza ética e política; recusa o relativismo extremo e as explicações generalistas; explora a tensão criativa entre a abstracção teórica e o detalhe descritivo. Sobretudo, considera que em antropologia a investigação social é essencialmente sobre si própria. [1] http://www.cf.ac.uk/socsi/hyper/ht99/EHE .html [2] http://fiji.union.edu/ [ 3] http://www.history.uncc.edu/jmflower/xia kou/ [ 4] http://www.cf.ac.uk/socsi/hyper/index.ht ml [ 5] http://hci.ucsd.edu/dew/html/index.htm [ 6] http://www.core.org.cn/OcwWeb/Media-Arts -and-Sciences/MAS-966Spring2003/CourseHo me/ [ 7] http://www.columbia.edu/dlc/dart/ [ 8] A vitória de Deep Bue foi conseguida numa espécie decampeonato composto por 6 jogos. No primeiro jogo a vitória foi de Kasparov, no segundo jogoa vitória foi de Deep Blue e os três jogos seguintes foram três empates, o sexto e último jogo deu a vitória (por maioria) a ao super computador. [9] Ned Ludd, cidadão do condado inglês de Leicestershire, ter-se-á tornado um herói popular depois de ter destruido uma máquina (1770-80) de tricotar meias, na fábrica onde trabalhava. O seu pseudónimo "King Ludd" e "General Ludd" foi-lhe dado por alguns rebeldes anti-industriais frequentemente denominados ludistas. Os ludditas não eram, no início, operários de fábrica. Eram, na maioria, artesãos extremamente hábeis das aldeias, principalmente de Yorkshire, que lidavam com vários tipos de comércio na indústria de lã. Eram bem pagos e, o que é mais importante, eram líderes comunitários de sólidas relações familiares, com devoção pela tradição e pela indústria doméstica. A Indústria, à medida que as fábricas e as máquinas automáticas se espalhavam pelo interior da Inglaterra interior, estava rapidamente a ganhar terreno. Nesta situação homens, mulheres e crianças eram metidos nas fábricas e os métodos tradicionais tiveram de dar lugar à disciplina do local de trabalho. Para os artesãos, isso significava tanto a destruição de seus pequenos negócios como o dilaceramento da estrutura doméstica e da vida em comunidade. De uma maneira altamente organizada e sistemática, os artesãos e seus aliados - os "ludditas" - penetraram nas fábricas à noite e reduziram a pedaços as máquinas de tecelagem. Outra versão diz-nos que os ludditas eram grupos de individuo organizados, mascarados e anónimos cujo objectivo era destruir a maquinaria usada na industria têxtil. Consideravam-se herdeiros de Ned Lud e da sua lendária hiroicidade de ter destruido as máquinas. O levantamento não foi exclusivo dos trabalhadores texteis. Trabalhadores agricolas, moleiros e mineiros e muitos outros participaram na destruição de máquinas. Nem exclusivo da inglaterra. Em Aix la Chapelle os operários destruiram as importantes fábricas de Cockerill. Muitos outros fizeram os mesmo no começo da revolução industrial. Actualmente poderemos dizer que os tecnófobos renovam a tradição ludista? Pacheco Pereira afima "Há ludditas no jornalismo, nas universidades, nos partidos políticos, nos empresários. Têm a nostalgia de um mundo ordenado, de que eles são ou os produtores da ordem ou os polícias da desordem. Divulgam a ideia que a indústria do comentário produz perversões, subversões e perturbações, em suma, inutilidades perigosas que nenhuma falta fazem" (Abruto - http://abrupto.blogspot.com/). [10] Século XIX "os primeiros cineastas soviéticos, como Sergei Eisenstein e Dziga Vertov, tinham experiência profissional na engenharia, na arquitectura e no design gráfico. Foram recrutados para o cinema como reacção à eclosão da Revolução Bolchevique, procurando uma fusão das artes e da engenharia numa altura em que a tecnologia era vista como a chave da transformação da Rússia de um estado feudal para uma utopia dos trabalhadores. Construíram as suas teorias numa linguagem derivada dos ambientes mais técnicos, com Vertov celebrando o "homem com a máquina de cinema", parte artista e parte engenheiro, com Kuleshov a falar dos seus primeiros trabalhos como "experiências", com Eisenstein a escrever sobre a edição da montagem relacionada com a reflexologia de Pavlov. Os seus artigos foram escritos para justificar o seu trabalho aos líderes do Partido Bolchevique (uma espécie de escrita formal de garantia) ou para explicar uns aos outros as lições que tinham aprendido com projectos específicos (uma forma de relatório de laboratório). Qualquer compreensão teórica era imediatamente convertida em aplicações práticas. Muitos teóricos digitais trabalham segundo esta tradição techno, fundindo a teoria e a prática" (Jenkins, 1999). [11] Remete esta matéria para a reflexão sobre o carácter social e situado da cognição, para a necessidade de a situar nos contextos de acção em que será estudada, para o conceito de comunidade de prática desenvolvido por Jean Lave e Etienne Wenger (1991) entendido como processos de negociação de significado, aprendizagem, o desenvolvimento de práticas e formação de identidades e configurações sociais envolvendo interacções complexas entre o local e o global. Estas apresentam três dimensões: um empenhamento mútuo (mutual engagement); um empreendimento conjunto (joint enterprise); um reportório partilhado (shared repertoire). [12] Ambos os modelos apresentam vantagens e desvantagens. Um favorece a cooperação de saberes e a possibilidade de maiores e mais consistentes desenvolvimentos, outra facilita os processos criativos individuais. Os dois modelos criam formas diversas e complexas de negociação e distribuição/partilha de poderes e saberes. [13] Para Gosciola "actualmente a hipermédia caminha para desenvolver-se e penetrar nos mais diversos meios de comunicação, como aconteceu com a TV. Essa verdadeira fricção e contaminação tecnológica e de linguagem, dada a convergência das tecnologias digitais, tem o poder reconhecido de acelerar os processos comunicacionais. Uma "nova linguagem para um novo meio" (a hipermédia) já era uma necessidade prevista por Vanevar Bush (1945: parte 3). Essa linguagem está presente em cada obra hipermidiática desde a sua roteirização até a sua estruturação de conteúdos e links, que, como veremos, é a autoração" (2003). [14] Daí o facto de, a nível tecnológico, se referir sempre a necessidade tecnológica de um potente editor (nossa opção iniciática – authorware). [15] Schnotz, W., Boeckheler, J., & Grzondziel, H. (1999). Individual and co-operative learning with interactive animated pictures. European Journal of Psychology of Education, 14, 245-265 e Enabling, Facilitating, and Inhibiting Effects in Learning from Animated Pictures em http://www.iwm-kmrc.de/workshops/visuali zation/schnotz.pdf . [ 16] Na realidade só partir dos anos 90 do século XX as tecnologias digitais estão realmente disponíveis para o garnde público: vídeo digital (1993), comercialização do DVD Internet para o grande público, portas USB: 12 mbps e fire wire IEEE1394: 400 mbps (1995), Portas USB 2.0: 480 mbps e fire wire IEEE1394.b: 800 mbps (2001), Primeiros computadores pessoais de 64 bits (2003) Banda larga na Internet (2004) Banda larga móvel (2006). [17] Ver na perspectiva da psicologia Sexo & Internet de Ana Alexandra Carvalheira em Sexualidade e planeamento familiar n.36, Janeiro/Abril 2003, ver também da mesma autora um estudo publicado em The Journal of Sex and Marital Therapy e apresentado no V Congresso Nacional de Sexologia - "Os Contextos do Sexo". Para Ana Carvalheira, o anonimato garantido pela Internet tem um papel libertador e desinibidor em relação ao sexo para a maioria dos portugueses que acedem a "chat-rooms" sexuais. O "cibersexo" constitui "mais uma forma de relação, um meio de comunicação como o telefone ou o cara a cara", permitindo o estabelecimento de relações. Afirmando que dantes tomava-se um "copito" para desinibir agora toma-se uma "netsite". Não é grande diferença. Haverá com certeza continuidades entre os dois contextos referidos por Carvalheira mas quais serão as mudanças e a sua profundidade e implicações sociais e culturais? [18] Ver o projecto Jogos Indígenas no Brasil que, semelhante ao que no passado se realizou com os índios da América do Norte, tem como objectivo fazer um levantamento do universo lúdico dos índios brasileiros (Kamajurá, Bororo, Pareci, Terena, Kanela, Guarany e Maxakali) compreendido pelos seus jogos, brinquedos e brincadeiras, criar uma base de dados dos jogos e realizar estudos comparativos. Serão contactados índios no Parque Nacional do Xingu em Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, São Paulo e Minas Gerais. http://www.jogosindigenasdobrasil.art.br /port/projeto.asp (consultado em 05-11-2006). [19] "Diawara fez como que um ritual de passagem por si próprio, uma antropologia na primeira pessoa em que teve de compreender a sua própria modernidade, o seu conhecimento de África e o seu percurso de cineasta que passou inevitavelmente por Rouch. A antropologia ao descrever o Outro acabou por paradoxalmente chamar o Eu para o centro do problema, fazendo emergir através das sociedades tradicionais, futuras sociedades (Ribeiro, 2000: 139). [20] Esta mesma questão pode colocar-se em relação a alguns filmes documentários como Nannok de Flaherty adoptado pela comunidade como memória ou documento histórico importante. Os filmes mais que os trabalhos escritos podem facilmente ser objecto do conhecimento e da apreensão das pessoas das estruturas, da cultura e da sociedade locais. 5. Bibliografia 6. Webgrafia – Etnografia antropologia digital http://www.cf.ac.uk/socsi/hyper/ht99/EHE .html . Consultado em [05/11/2006]. http://fiji.union.edu/. Consultado em [05/11/2006]. http://www.history.uncc.edu/jmflower/xia kou/ . Consultado em [05/11/2006]. http://www.cf.ac.uk/socsi/hyper/index.ht ml . Consultado em [05/11/2006]. http://hci.ucsd.edu/dew/html/index.htm . Consultado em [05/11/2006]. http://www.core.org.cn/OcwWeb/Media-Arts -and-Sciences/MAS-966Spring2003/CourseHo me/ . Consultado em [05/11/2006]. http://www.columbia.edu/dlc/dart/. Consultado em [05/11/2006]. |
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